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sexta-feira, 13 de julho de 2012

BUUD YAM: a mítica viagem do herói em busca de si mesmo


      "BUUD YAM", do diretor burquinense Gaston Kaboré  narra, à maneira da tradição oral africana, uma mítica viagem de auto-descoberta.


     No começo do séc. XIX, Wend Kuuni, ao ser encontrado abandonado e quase morto no meio da selva, é adotado e criado por uma família de uma pequena aldeia africana localizada numa curva do Rio Niger após sua mãe ter sido morta por ser considerada feiticeira. Quando sua irmã adotiva, Pughneere, fica doente de uma misteriosa doença, Wend Kuuni deixa a aldeia e empreende uma longa viagem em busca de um curandeiro que a ajude a recuperar a saúde.

     Como numa história infantil, esse filme é a respeito da infância e da busca por uma identidade, do encontro consigo mesmo. Além disso, o filme levanta algumas questões fundamentais a respeito de coisas que constroem ou destroem o mundo e a humanidade: a tolerância e a inclusão social que permite às pessoas comuncarem-se e respeitarem-se, ou, ao contrário, a desconfiança, a intolerância, a exclusão e o consequente medo do outro.

     Nessa busca pelo lendário curandeiro que, com suas "ervas do leão", poderá curar sua irmã adotiva, Wend Kuuni realiza uma jornada inicática que o conduzira rumo às suas próprias raízes.

SERVIÇO:
Filme: "BUUD YAM", de Gaston Kaboré
Quando: sexta-feira, 13 de julho
Horário: 19:30h
Local: Casa de Leitura Lya Botelho (R. José Peres, 4 / Leopoldina-MG)
Entrada grátis
Censura: 14 anos

Apoio Cultural:



Apoio Institucional, Realização e Patrocínio:


sábado, 16 de junho de 2012

A desConferência de Alfredo Wagner no Cultura&Sustentabilidade do RIO+20

OS SABERES TRADICIONAIS E A CULTURA DA SUSTENTABILIDADE


por Alfredo Wagner




Publicado em maio 16, 2012  por Cultura & Sustentabilidade RIO+20

15 de Junho, de 9h30 às 12h30
 Local: Galpão da Cidadania



1 – Estamos assistindo nestas duas primeiras décadas do século XXI a uma intensa mobilização em torno da proteção da criatividade intelectual, que tem uma de suas manifestações mais expressivas nas lutas pelo reconhecimento dos saberes tradicionais. As produções intelectuais baseadas na tradição ganham uma nova significação com a globalização. Em torno delas tem-se mobilizações, buscando um reconhecimento internacional da igualdade jurídica da expressão intelectual dos homens.


2 – Uma noção ampliada dos saberes tradicionais compreende um conjunto de práticas e de saberes cotidianos, agrícola e ecológico, ligados à biodiversidade e às expressões folclóricas sob a forma de música, dança, cantos, artesanatos, desenhos, pinturas corporais, elementos de linguagem – com os nomes, as indicações geográficas e os símbolos das sequencias cerimoniais. Os saberes tradicionais não são estáticos, são dinâmicos e se transformam sucessivamente. Não são definidos por sua antiguidade, mas pela maneira como são adquiridos e utilizados. Considerando que são relacionais, não é possível, portanto, desenvolver uma única definição, exclusiva e fixa destes saberes como apregoam as interpretações evolucionistas.

3 – O respeito à diversidade cultural, o reconhecimento efetivo e a consideração de modos de vida e de pensar distintos são o pressuposto básico para a afirmação dos saberes tradicionais. Ao tratar desses saberes, não falamos exclusivamente do exemplo corriqueiro do conhecimento de povos indígenas sobre plantas medicinais, que interessam às indústrias farmacêuticas e àquelas de cosméticos. Consideramos relevante falarmos também dos saberes dos demais povos e comunidades tradicionais, como os quilombolas, as quebradeiras de côco babaçu, as comunidades de faxinais e de fundos de pasto, os ribeirinhos, os seringueiros, os castanheiros, os pescadores artesanais e os piaçabeiros. Estamos nos referindo aos conhecimentos de quebradeiras de coco babaçu que, detentoras de um sistema de saberes renovados no cotidiano, localizam as melhores palmeiras, “catam” e quebram o coco babaçu e dele aproveitam tudo, segurando sua reprodução física e social. Reafirmando seus saberes tradicionais, mobilizam-se para manter os ecossistemas das quais sobrevivem e o modo de vida ali construído, lutam para continuar sendo quebradeiras de coco babaçu. Estamos falando dos saberes e práticas das mulheres faxinalenses, para quem cuidar da saúde com ervas medicinais é um ato intermediado pela divindade que provê o dom de curar. Estamos falando da diversidade das línguas nativas e dos dialetos, das ricas expressões da nossa cultura manifestada nos artesanatos, nas danças, na culinária e nos rituais. Falamos de saberes que são renovados no cotidiano das pessoas e das comunidades e que são afirmados em nome de uma identidade coletiva.

No Brasil, o Decreto n.3.551/2000 institui o registro do patrimônio cultural. Através dele foi instituído o livro dos saberes, onde são inscritos os “conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades”. As noções de “enraizado” e “cotidiano” sugerem esta tradicionalidade sem reduzi-la às práticas mecânicas de repetição.

Uma indagação corrente: tal instrumento de registro tem sido visto positivamente pelos povos e comunidades tradicionais?

4 – O processo social de aprendizagem e de compartilhamento destes saberes é singular e corresponde às especificidades de cada povo e comunidade tradicional, consistindo no próprio fundamento de sua tradicionalidade. As regras de transmissão mostram-se variáveis, requerendo uma acuidade extremada para a compreensão dos costumes locais e para sua normatização.

5 – Com a emergência das modernas biotecnologias, os saberes associados aos recursos genéticos emergem como dotados de um valor econômico, cientifico e comercial até então ignorado. Tal emergência ocorre simultaneamente à ênfase na cultura da sustentabilidade, apoiado na Convenção de Defesa da Biodiversidade, de 1992. A sustentabilidade de que tanto se fala passa a ser vista como muito atrelada ao aspecto econômico do uso do meio ambiente.

Os saberes tradicionais indicam uma possibilidade econômica, mesmo aqueles que não são associados à biodiversidade?

6 – A erradicação da pobreza foi declarada pela ONU como meta para este novo milênio (cf. Declaração do Milênio, 2000) e a Convenção para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, de 2005, classifica a cultura como um elemento de combate à pobreza. Com esta Convenção, os Estados se comprometeram a fomentar as indústrias culturais.

A cultura, a partir destas Convenções, se transforma em mercadoria? E o patrimônio cultural é um conjunto de bens? Bens, sim, mas de natureza especial, como afirma a Convenção de 2005, uma vez que expressam valores e identidades.

7 – Os saberes tradicionais se exprimem de maneira tangível (ex.artesanatos) ou intangível (ex. rituais) e as atuais mobilizações em torno deles simbolizam uma oposição entre uma produção anônima industrial de bens e serviços para as sociedades multinacionais regido pela rentabilidade financeira, e uma economia comunitária que assegura a sua sustentabilidade. Esta autonomia no produzir e a garantia da reprodução dos recursos, que caracterizam a sustentabilidade, autorizam que se fale hoje numa autoconsciência cultural como fator básico das mobilizações.

8 – Os saberes dos povos e comunidades tradicionais possuem um caráter coletivo e a sua aquisição por parte de terceiros (indústrias e laboratórios), deve ocorrer, segundo as disposições legais, através das disposições que regem os contratos baseados na justa repartição dos benefícios resultantes de seu uso.

9 – Ao empreender um trabalho exploratório para melhor compreensão das questões ligadas à propriedade intelectual em relação aos recursos genéticos, aos saberes tradicionais e às expressões do folclore, a OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) tem colocado em pauta questões relativas a um consenso sobre os princípios e os objetivos da proteção dos saberes tradicionais. O instrumento da consulta, nos termos da Convenção 169 da OIT torna-se essencial para que possam ser explicitados os pontos de vista dos povos e comunidades tradicionais através sobretudo, dos movimentos sociais, sobre a natureza destes contratos, em cada situação específica, e seus efeitos sobre os recursos naturais e a própria vida comunitária.

Sobre o autor: Alfredo Wagner
Possui mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993). Atualmente é professor colaborador da Universidade do Estado do Amazonas-UEA, como professor e pesquisador do Centro de Estudos do Trópico Úmido-CESTU. Atuando principalmente nos seguintes temas: povos tradicionais,etnicidade, conflitos, movimentos sociais, processos de territorialização e cartografia social, Amazônia.


(Originalmente publicado em http://www.cultura.gov.br/riomais20/desconferencia/2012/05/16/os-saberes-tradicionais-e-a-cultura-da-sustentabilidade/)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Curso de Introdução à Religiosidade de Matrizes Africanas, em Cataguases-MG

   

     Com a chancela da UNEGRO,  o apoio da Fundação Ormeo Junqueira Botelho e patrocínio da ENERGISA, além da presença de representantes de diversas organizações de afrodescendentes, professores e estudantes de História, a Coordenadora de Assuntos Religiosos da UNEGRO-União de Negros pela Igualdade, Iyanifá Ifadàará Nylsya dos Santos, de Belo Horizonte-MG ministrou, no Centro Cultural Humberto Mauro (Cataguases-MG) um Curso de Introdução à Religiosidade de Matrizes Africanas.

     O evento ocorreu no último sábado, dia 2 de junho, com uma carga horária de 8 horas, que mostraram serem poucas diante da grande cultura e facilidade de comunicação demonstradas pela ministrante, e devido ao enorme interesse pelo assunto demonstrado pela audiência.

     Tendo realizado os ritos finais de sua formação como sacerdotisa dos rituais religiosos de matriz africana, Nylsya dos Santos fez um retrospecto tanto antropológico como sociológico do surgimento, evolução e diáspora da raça negra, e o impacto da sua cultura na de outros povos, especialmente o europeu e o brasileiro.

     Sua aula abrangeu as diferenças e similitudes entre o Catolicismo, o Judaísmo e o Islamismo com as religiões oriundas do continente africano. Inclusive o surgimento de uma religião tipicamente brasileira, a Umbanda, com determinados ritos e divindades de inspiração africana e largo sincretismo com a religião católica, foi tema de esclarecedoras explicações da palestrante.

     O preconceito sofrido pelos adeptos dessas religiões consideradas "primitivas", em muito reside no fato de nos esquecermos que "primitivo" é sinônimo de "primeiro", "primevo", aquilo que existe de forma mais pura, inicial, sem os acrécimos e subtrações que a, assim chamada "civilização", causa.

     Num país como o nosso, onde a população negra é numéricamente muito expressiva, e cuja cultura influenciou de forma muito significativa a cultura eurocêntrica implantada, à força, pelos colonizadores, a oportunidade de estabelecer comparações, reconhecer fatos e respeitar diferenças, é de enorme valia e, certamente, colabora para que não vivamos na "cegueira branca", conforme Saramago.

     A Iyanifá Ifadàará, Nylsya dos Santos, a convite da Presidenta Dilma Roussef, ocupará, a partir da próxima semana, uma das cadeiras do Conselho do Ministério da Assistência Social e do Trabalho, em Brasília, representando a UNEGRO.

     Parabéns a todos os envolvidos na vinda dessa especialista em religiosidade africana e que outras possibilidades de aprendizagem e troca de informações, como essa, continuem a acontecer na nossa região.


Obs.: Na foto, o cineasta leopoldinense Lucas Mendonça e um dos coordenadores da Casa de Leitura Lya Botelho, Alexandre Moreira.